Doodles são desenhos encontrados com freqüência em blocos de reuniões de trabalho e em cadernos de alunos. Às vezes, porém, esse aparente sintoma de distração pode esconder talentos. É o caso de Shiro Nakamura. É verdade que, quando menino, ele não estava mesmo interessado na aula quando enchia as margens das folhas do caderno com desenhos de carrinhos. Mas foi por meio desse exercício que aos nove anos de idade decidiu que seguiria a carreira de designer de automóveis.
Cinquenta e dois anos depois, o chefe de criação, design e gestão de marca da Nissan parece tão entusiasmado com os carros como nos tempos de garoto. Nos 37 anos de uma carreira que inclui passagens pela criação na Isuzu e design avançado da General Motors, nos EUA, não é a evolução tecnológica dos automóveis que mais instiga a criatividade do executivo. Para ele, a parte mais complexa da carreira começa agora: em meio aos desafios ambientais, de nada adiantará o talento na criação se o automóvel não estiver inserido no novo ciclo da mobilidade urbana.
Pela primeira vez no Brasil, Nakamura percorreu Rio e São Paulo em dois dias e saiu ontem do país com a certeza de que o gosto brasileiro por carros é diferente de qualquer outro país emergente. Ele já ouvira falar sobre essa peculiaridade. “O interesse do consumidor aqui é muito específico.” Outra coisa que chamou sua atenção: a limpeza dos carros. Pelo menos nas duas capitais ele testemunhou carrocerias reluzentes circulando pelas ruas. Nada a ver com a falta de capricho dos europeus, compara.
Se o começo da história da indústria automobilística no Brasil foi fortemente influenciada pelas linhas européias, há hoje uma mistura de tendências, atesta o executivo japonês. “É um balanço de influências único”, destaca.
Ele veio ao Brasil para conhecer os trabalhos de alunos do Instituto Europeu di Design (IED), em São Paulo, com o qual a Nissan firmou uma parceria para apoiar o curso de design automotivo. Segundo Nakamura, a montadora tem feito isso para estimular a troca de informações com os jovens. O executivo lamenta ver o interesse por carros diminuir entre os jovens. E, embora considere o sistema de metro de Tóquio complicado, o executivo reconhece que a fartura de meios de transporte em países como onde ele nasceu afasta as novas gerações dos automóveis.
E quando o assunto é tendência de cores, Nakamura rejeita tons chamativos. Conta que ele só teve carros prata. Tonalidades sóbrias o ajudam a perceber melhor o formato. Engana-se quem pensa que um amante dos automóveis, como esse, torce o nariz para modelos elétricos. Com um volante imaginário, Nakamura se acomoda na cadeira e, como se voltasse à infância, explica: “Num carro a combustão, a passagem das marchas leva a um ‘vrum, vrum, vrum’, em várias etapas. No elétrico, o carro logo sai num único ‘vruuumm’.”
Para ele, o carro elétrico deveria chegar ao Brasil antes até do híbrido. “Como o consumidor brasileiro prefere carros pequenos, o preço de um híbrido, normalmente maior, não vai compensar”. A Nissan não tem planos de híbridos no Brasil. Já a sua concorrente, a Toyota, já anunciou que começará a vender o modelo Prius (que tem dois motores – um elétrico e outro a combustão) no próximo ano.
Com uma equipe de 600 profissionais no Japão, 60 em San Diego (EUA) e mais 50 em Londres, Nakamura esteve envolvido nos projetos de carros do futuro recentemente apresentados no salão do automóvel de Tóquio, como o Pivô, o projeto do carro elétrico que estaciona sozinho e pode ser acionado por meio de celular. Para Nakamura, trata-se da segunda geração dos elétricos, que depende da infra-estruturar das cidades, e que pode funcionar cinco a seis anos depois de a primeira geração, lançada no ano passado no Japão e Europa, se consagrar no mercado.
O carro elétrico trará mais liberdade à criação. É o caso da ideia, por exemplo, de o banco do motorista vir no meio do veículo e o do passageiro atrás. A proposta da Nissan não é nova, lembra Nakamura. Foi inspirada nos modelos esportivos.
Da mesma forma, ele acredita que não falta muito para as famílias começarem a colocar o carro elétrico dentro de casa para aproveitar as baterias em outros equipamentos do lar, como a televisão. Ou mais: como a própria Nissan apresentou em Tóquio: a casa móvel, que pode ser deslocada em viagens ou até em caso de emergência em catástrofes.
Estacionado sob a casa, o carro seria, no caso, um parceiro da família, fornecendo energia com suas baterias, que conseqüentemente, seriam recarregadas por meio de energia solar. Projeto do futuro? “Não, isso pode ser feito a qualquer momento; é fácil.”
Já a fase dos incentivos governamentais, única forma que a indústria encontrou para comercializar modelos elétricos na Europa, Japão e EUA, está prestes a terminar, segundo ele. “A demanda vai crescer e os governos vão parar de dar bônus, que hoje chegam a até 25% do valor do veículo”, diz.
Nakamura não revela nenhum plano de a Nissan vir a instalar um centro de desenvolvimento no Brasil. Hoje a montadora vende 60 modelos diferentes no mundo e só 15% das vendas ainda estão no Japão, seu terceiro maior mercado, depois de China e EUA. Nakamura deixou o Brasil ontem rumo a Londres, onde está o centro de criação da empresa na Europa. Metade do tempo da sua agenda é dedicada a reuniões de trabalho. A outra metade é toda dedicada ao que ele gosta de fazer desde os nove anos de idade. Afinal, diz, por mais que a mobilidade avance “nunca poderemos deixar de fazer carros bonitos”.

Fonte: Valor Econômico – 20/12/2011